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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

OLHOS DE ANJO. ( Um conto de Eduardo Schloesser )

Maria do Carmo era uma mulher robusta, de quadrís largos, seios firmes e fartos, pensar-se-ia que com eles daria para amamentar um exécito. Olhos negros, pestanas grossas, rosto redondo de lábios carnudos, cabeleira crespa e volumosa com vários fios pratedos que denunciavam a idade de 45 anos. Suas axilas e púbis nunca conheceram navalha. Viúva. O marido um dia resolvera se envolver com garimpo, viajou para plagas distantes e foi assassinado com dois tiros no peito ao se engraçar com uma mulata comprometida. Por herança, as únicas coisas que deixou foram dívidas e três filhos, dois rapazes e uma menina, que ela criou com sacrificio costurando roupas pra fora. O mais velho tinha desessete anos, estava em vias de ir para o exército, onde acalentava o sonho de seguir carreira, ser general. Moleirão como era, duvidava-se que conseguisse, chamava-se Childerico. O mais novo, tinha quinze, era  esperto, um tanto travesso, chamava-se Tertuliano.  Ambos trabalhavam num roçado de um sítio próximo alguns quilômetros. A menina, uma gordinha, sardenta como o pai e o irmão mais velho, chamada Maria Clara, tinha oito anos. 
Mãe e filhos moravam numa casinha ao pé da serra. Uma habitação rústica, mas que ela não media esforços para tornar confortável aos seus rebentos. Era cercada por numerosas árvores frutíferas e uma horta muito bem cuidada. Duas cabras e algumas galinhas proviam a alimentação da família.

Certa manhã modorrenta, saiu do meio da mata um indivíduo alto, magro, cavanhaque bem desenhado no rosto austero, e longos cabelos grisalhos. Trajava calças de brim, camisa de chita beje, com as mangas dobradas na altura dos cotovelos, colete de gibão de couro curtido, botas longas, o cinto combinando com o chapéu de abas largas. Uma bolsa de couro de bode ladeava seu corpo esguio.
Com a parte de cima do rosto envolta em sombras pelo chapéu, atravessou o portãozinho de madeira e arame farpado e cumprimentou Maria do Carmo, que lidava no tanque de roupas.
"Bom dia! A senhora me desculpe invadir assim. Me dá de beber, dona?"
"Claro. Ô Tertuliano, venha dar água para o moço forasteiro, depressa!"
O rapazinho, largou a enxada com a qual capinava a lateral da casa um tanto a contragosto e dirigiu-se ao poço. Pegou uma concha de cabaça, encheu-a e serviu ao estranho. Ele bebeu e sorriu. Tirou o chapéu e inclinou-se na direção da mulher em sinal de agradecimento. Neste momento ela viu seus olhos. Olhos profundos e mansos, de um azul intenso e penetrante, como os olhos de um anjo.
"O moço não é daqui, pois não?"
"Não, venho de uma terra muito, muito distante." Suspirou fundo." A senhora tem uma bela propriedade aqui!" Disse isso olhando em volta. O mocinho voltou à enxada, a menininha rechonchuda brincava embaixo de um abacateiro com uma boneca rota de pano. O rapaz mais velho, sentado numa cadeira à porta de casa, o fitava com olhar indolente e curioso.
"Se o moço vem de tão longe, decerto há de estar com fome, está servido almoçar antes de seguir viagem?"
"Ah, a velha cortesia interiorana! Os bons modos ainda insistem em brotar neste mundo carregado de iniquidade!" A mulher franziu as grossas sobrancelhas tentando compreender as palavras do homem.
"Agradeço muito, mas no momento tenho muito mais a necessidade de me servir da senhora."
"Comequié?!? Não entendi!"
"Entendeu sim. Vamos lá para dentro. Não vai demorar nada e a senhora vai gostar!"
"Isto... isto é um absurdo! Sou mãe, estes são meus filhos! Sou uma mulher de respeito! O senhor suma da minha propriedade!"
"Se eu não sumir, vai acontecer o quê?"
"É...meu marido... meu marido chega já... ele...ele..."
Enquanto a mulher falava, o forasteiro obsevava ao seu redor. Notou que o ruivinho sardento levantou-se da cadeira, o garoto da enxada  se aproximava, lívido.
Calmamente foi ao poço e tomou mais um pouco de água.
"Poupe saliva, a senhora não tem marido. Se tiver, deve ser um borra-botas. Seus olhos demonstram que tem sede de um macho de verdade!"
"O senhor não fale assim na frente dos meus filhos!"
O homem repentinamente agarrou a mulher pelos cabelos e puxou-a em direção à casa. Ela protestava enquanto era induzida. Tertuliano, com um berro, levantou a enxada direcionada à cabeça do estranho. Mas antes que pudesse concluir o ato, tomou um violento chute no peito.
Berrou e caiu ao solo tentando sorver ar com sofreguidão. A menina, em estado de choque, agarrou-se à boneca. Chiderico, num ato instintivo, aproximou-se do estranho e levou um soco selvagem na boca. O mancebo agarrou os lábios cheios de sangue e dobrou-se enquanto urinava nas calças.
Temendo o que poderia acontecer a seus filhos a mulher afrouxou sua resistência. Empurrada para dentro da casa, o forasteiro a impeliu para um dos quartos e jogou-a sobre uma cama. Tentou vira-la de bruços mas ela resistiu. "Olhe dona, isto pode acontecer de um jeito fácil ou difícil. Não me obrigue a ser violento com a senhora. Então, como vai ser?" Intuindo que seria inútil repelir o agressor, Maria do Carmo fechou os olhos e se submeteu. O forâneo trancou a porta e levantou-lhe as saias descobrindo sua enorme bunda, baixou as calças e deitou-se em cima dela com voragem.

Do lado de fora da habitação, Tertuliano, parcialmente recuperado da agressão que sofrera, sentou-se ao lado do irmão de calças molhadas. "O que vamos fazer?" O outro, ainda segurando os beiços inchados, nada respondeu. "Precisamos fazer alguma coisa, aquele cara pode estar matando nossa mãe!" Com os dentes frouxos nas gengivas sangrantes, Childerico se impacientou: "E vamos fazer o que? Viu o que ele fez com a gente? Esse cara pode ser um bandido, um assassino!"
A menina, com um tom choroso na voz, perguntou com cuidado:
"O que aquele homem tá fazendo com a mamãe?"
"Nada - respondeu o irmão do meio - Eles só entraram em casa para conversar."
"Mentira, aquele homem tá machucando a mamãe! Porque ele bateu em vocês? Porque ele puxou a mamãe pelos cabelos?"
"Ah, Clarinha, pare de encher o saco! Vai brincar com alguma coisa, não enche!"
"Mas..."
"Ande, ou vou te bater!"
Quando a criança se afastou, Tertuliano desafiou o irmão:
"Você devia fazer alguma coisa."
"O que, porra? Fazer o que? Por que eu?"
"Você é o mais velho, vai entrar para o exécito, vai ser soldado!"
"Ah! Num enche! Você não sabe nada!" 
Ficaram ali em silêncio por longos minutos. A natureza era totalmente indiferente ao drama. O sol brilhava num calor agradável, pássaros chilrreavam nas copas das árvores, libélulas pairavam rentes à vegetação.
"Tão demorando muito, o que será que está acontecendo?"
"É, tão demorando muito mesmo!"
"Acho que vou dar uma espiada lá dentro."
"Cuidado!"
Tertuliano tentando fazer o mínimo de barulho enquanto caminhava rente à parede da casa, procurava algum som que viesse de dentro. Nada. Até que num segundo pareceu-lhe ouvir o ranger das molas de um colchão.
Junto à janela vedada, espiou por uma fresta e pensou ver o que poderiam ser nádegas bronzeadas, subindo e descendo em estocadas rápidas, firmes e violentas.
Voltou para junto de Childerico.
"Parece que estão lá ainda."
"O que estão fazendo?"
"Ah, cê sabe!"
Num átimo de resolução, o garoto levantou-se e seguiu em direção à cozinha e de lá pegou um facão. Neste momento, enquanto empunhava a arma, a porta do quarto se abriu e o estranho surgiu todo suado, apertando o cinto nas calças. Fitou-o sombriamente com aqueles olhos cor de anil e disse com tranquilidade:
"Cuidado com este facão, rapaz. Pense em alguma besteira e eu o enfio no seu cu até o cabo, e com ele lá dentro ainda, corto sua língua!"
Diante de tais palavras, o mocinho se acovardou, largou a arma e saiu desabalado do domícilio.
O homem ajeitou os cabelos, pegou uma caneca, serviu-se de café que havia num bule, deu um gole, estalou a língua, apanhou o chapéu e foi em direção ao quarto. Parou na porta e disse à mulher que jazia encolhida, deitada na cama:
"Fique tranquila. Não nos veremos mais."
Pôs o chápeu e retirou-se da casa. Os três irmãos agrupados o observavam com um mixto de apreenção e raiva. Tocou a aba da cobertura em diração a eles, atravessou o portãzinho e sumiu na mata.

Só muito tempo depois, Maria do Carmo teve coragem de sair. Os meninos não conseguiram encara-la.
Sentou-se na cadeira com um gemido.
"Aquele desgraçado...ele me machucou pra valer!"
"Como mãe?"- perguntou a filha.
"Nada, não importa!"
Levantou-se, tomou um banho e foi cuidar do almoço.

Dois meses depois vieram os enjoos. Não havia dúvidas, estava grávida. Tomou chá de raiz forte, indicada por uma velha índia, mas o feto resistiu. Ela decidiu não lutar contra ele. Nos meses subsequentes, ele lhe chutaria o ventre trazendo à memória o seu vitupério.
Nasceu um menino robusto, de olhos azuis cristalinos, no mesmo dia que seu filho mais velho entrou para as forças armadas.
O exército não era nada do que Childerico pensava. Morreu baleado num execício de tiro que nunca foi devidamente esclarecido.
As lágrimas amargas da mãe foram aplacadas pelo suave toque do seu novo rebento.
Uns anos depois, Tertuliano, que desde aquele fatídico dia evitava os carinhos da genitora, começou a namorar uma mulatinha da vizinhança e se casou.  Mudou-se e nunca mais deu notícias.
Clarinha também, não muito tempo depois, engravidou de um rapaz, juntou os panos e tornou-se uma máquina de fazer filhos.
Certa vez, Maria do Carmo arranhou o braço na cerca de arame farpado e foi acometida de tétano. O suplício da doença quase a matou. Quase. Mas as sequelas nunca a permitiram ter uma vida normal outra vez. Neste tempo, pouca ou nenhuma ajuda recebeu de parentes ou amigos. O único apoio que nunca faltou foi de seu filho caçula, o bastardinho como ela o chamava em seu íntimo, sempre ao seu lado, com seu sorriso puro de infante. E aqueles olhos azuis, como os olhos de um anjo.         







 

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