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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ACONTECIMENTO BANAL.


Houve um tempo em eu que gostava de tirar fotos. Hoje não gosto mais. No passado eu tentava fazer parte de grupos. Queria estar inserido. Pra usar uma liguagem moderna (bem, nem tão moderna assim), ser "IN" ao invés de "OUT". Hoje só quero ficar na minha.
Os tempos mudaram. 
Eu mudei.
Na verdade parei de tentar ser o que não era. A única vantagem de envelhecer é que os anos tenden a revelar o que se é na verdade. Assim você se sente a vontade para se aceitar. Se é baixo, é baixo, se é careca, é careca. Quem não se aceita, acaba caindo no ridículo usando peruca e enchendo os sapatos de palmilhas pra ficar mais alto. Havia um personagem no  volume colorido de Luther Arkwright - gibi de Bryan Talbot - um militar de porte, mas na verdade o cara era esquálido, tinha enchimentos no uniforme e outros apetrechos que salientavam o aspecto pomposo.  Eu queria ter tempo para fazer um paralelo entre o que afirmo aqui e algumas palavras do personagem Brás Cubas de Machado de Assis, mas fica para outra ocasião.
É lógico que  existem pessoas que são autênticas desde o berço, e outras que os anos não as convence, mas eu diria que são exceções, não regra.
Digo tudo isto porque agora me sinto a vontade pra narrar um fato que aconteceu o ano passado, e não estava confortável para faze-lo na ocasião. Fiquei temeroso de causar constrangimento às outras personagens da peça e pensando bem não há razão para tal.
Fui ao centro da cidade comprar materiais de trabalho e como de praxe, dei uma chegada na Livraria Cultura; estava folheando uns livros quando um casal jovem e elegante se aproximou de forma um tanto desconcertada e perguntaram se eu era o Eduardo Schloesser, o cara que criou o Zé Gatão (o rapaz que tinha um forte sotaque do Rio Grande do sul, errou a pronúncia do meu nome. Normal, todo mundo erra, até os que me conhecem de longa data). Surpreso, respondi que era eu mesmo. Começaram então os confetes, que eu era um artista fantástico e que Zé Gatão era foda. Comecei a ficar envaidecido. Eram casados, indaguei de onde eles me conheciam. De uma palestra que dei no MAMAN uns anos atrás, disseram. No ensejo eles estavam atrasados para outro compromisso por isto não puderam falar comigo. Um papo rápido e indagaram porque não lancei mais álbuns do felino e se tinha outros projetos de HQ que não envolvessem antropomorfos. Respondi. A moça era mais entusiasmada. Parecia gostar mesmo do meu personagem. Dizia que ele era lindo. Que comprou o álbum preto pelo Submarino por indicação de uma amiga que reverencia gatos, Sandman e cultura egípcia. As vezes essas coisas me assustam.
Estava até gostando do assunto. A vaidade pode ser como o alcool, em excesso pode ser nociva. é bom se policiar.
Num dado momento o rapaz perguntou se poderiam tirar uma foto comigo. Já tirei várias fotos com admiradores e é algo que não me deixa a vontade. Titubeante, respondi que não haveria problema. Mas tinha que ter o livro do Zé Gatão na foto, disseram. Então foram perguntar a um atendente se  tinham o tal gibi. Havia um exemplar na loja de São paulo, se quisessem poderia encomendar que chegaria em três dias. Poxa, que pena. Então indagaram se havia outro livro da minha autoria na loja. Havia o Livro de Anatomia da Ópera Graphica. Pegaram o livro. A esta altura eu já estava bem embaraçado. Queria que eles desistissem daquilo. Então pediram ao tal atendente, um rapaz afetado e arrogante para clicar.  Se posicionaram ao meu lado. Um à direita, o outro à esquerda. Cheiravam bem e eram mais altos que eu. O rapaz pôs a mão no meu ombro e a moça me cingiu a cintura. Sorriam. Agora chegamos ao coração da minha narrativa. Eu não sabia se ficava sério ou mostrava os dentes. Decidi sorrir, mas não muito. Me senti um pateta. Naqueles segundos antes do cara apertar o botão da máquina eu ensaiei a melhor expressão e isto me incomodou. Este não sou eu. Todos querem ficar bem na foto, é natural, mas eu me flagrei querendo estar tão bem quanto aquele casal onde parecia que tudo era festa. Eu não estava confortável, me sentia um farsante. Me achavam um grande criador e eu só tinha a grana da passagem de volta pra casa. O cara bateu a foto. Vamos ver. Ei, você não enquadrou direito. O livro ficou cortado. Pedi pra ver. Minha cara ficou esquisita. Feia como sempre. Riso forçado. Nova foto. Decidi ser eu mesmo desta vez. Sério. A expressão de alguém que logo vai fazer cinquenta anos e ainda luta pra pagar o aluguel. O cara clicou. A foto ficou boa. Minha cara desta vez me agradou mais.
Como Zé Gatão foi o pivô deste episódio nada mais natural que te-lo na postagem. São rabiscos feitos no passado.
O casal gaúcho pediu meu e-mail pra manter contato e enviar as fotos. Tô esperando até hoje.


7 comentários:

  1. Fala, Eduardo! Rapaz, imagino o que deve ter passado. Eu nunca fui clicado como celebridade, mas já fui meio como o casal. Sou meio entusiasmado com meus ídolos, mas ultimamente tenho ficado mais comedido. Já consigo ver além dos mitos. Esse lance de não sermos nós mesmos para manter uma aparência é horripilante.
    Às vezes vou a palestras (assistir) apenas com o dinheiro da passagem tb. Não é depreciativo. Pelos menos estamos em movimento, buscando vivermos nossa vocação da melhor forma. Muitos desistem.
    Abração,

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  2. Bom... é, também acho chato quando pedem e-mail e prometem a tal foto.
    No meu caso, aparece em eventos pra expor (fanzines e minhas ilustrações), onde há muita gente fantasiada e quando se esquece, quebrou ou não tem câmera, tem que pedir a alguém do staff, amigo(a) ou visitantes.
    Já usei 3 fantasias, só por diversão, não pra competir.

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  3. Olá Gilberto, sabe, uma das minhas preocupações com este texto, foi o temor de não ser claro, ou seja, de passar uma imagem de "estrelinha que não gosta do público" e tal, mas pelo seu comentário vejo que não ficou esta impessão. Meu problema não é com as pessoas e a foto em si, mas a maneira como eu me sinto frente a isto. Não me sinto uma "celebridade", sou um cara comum. Comum até demais. Não vejo motivo para autógrafos e fotos, dá a impressão que estou enganando alguém, sabe. Mas sei lá, se algumas pessoas gostam de tirar fotos por que admiram minhas criações eu só tenho a ficar lisonjeado.
    Abração.

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  4. Digaí, ANDF.
    Ei, eu já te vi fantasiado de Spirit, não foi?
    Taí, se eu fosse me fantasiar seria de Spirit, ou Roschard. Pô, seria legal.
    Abração aí.

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  5. Corrigindo o nome acima, é ROCHARD, aquele do Watchmen.

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  6. Legal... Isso mesmo.
    RORSCHACH (leia-se Rorchaqui) é mesmo um nome complicado pra muitos... e já tirei foto com um cosplayer dele, em Porto Alegre (2009).

    Antes do SPIRIT (versão do MILLER "diretor-babão"), fui "cospobre" do MERCENÁRIO (o do cinema e das hqs, em um). E ano passado, fui como agente MIB.
    O problema de vestir-se de preto, é com o calor.
    Né? XD

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  7. Então está feita a correção do nome do vigilante feio e fedido. Mas eu culpo o google pelo meu erro, pois fiz uma consulta lá antes. Devia ter pego meu volume de Watchmen
    Mas beleza, valeu ANDF pelo esclarecimento.
    Realmente, MIB no calor equivale a Tarzan no inverno.
    Abraço.

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