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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

OBRAS QUE RECOMENDO ( ESTÓRIAS GERAIS )


 Estórias Gerais é uma das melhores histórias em quadrinhos surgidas em todos os tempos em terras brasileiras. Isto posto, vamos ao texto:

WELLINGTON SRBEK - A primeira vez que ouvi falar deste fantástico escritor, foi lendo uns textos muito bons de sua autoria para a extinta (e trapaceira) METAL PESADO. Logo depois, na Livraria Muito Prazer, folheei um álbum onde eu via na capa um personagem de sobretudo alçando vôo. Tratava-se de Solar, personagem criado (e bastante elogiado) por este roteirista mineiro. Não li a referida obra até hoje por pura negligência devo confessar, mas está na minha lista de aquisições futuras.
Quem me conhece bem sabe da dificuldade que tenho de me relacionar com pessoas em grupos, simplismente não suporto estas situações. Esta é a razão por ter morado tantos anos em São Paulo e ter ido uma única vez no HQ MIX.
Foi bom?
Foi.
Divertido?
Sem dúvida.
Ver de perto tantos artistas talentosos recebendo seus prêmios, editores, fãs do gênero e tal, é uma experiência legal, mas eu deveria ter chegado na hora de começar e ido embora no exato momento em que acabou, mas não fiz isto. E como eu disse, não consigo me iserir nas rodinhas de conversas, então fico lá, parado como um paspalho. Tentei cumprimentar o Lourenço Mutarelli (naquela época nos fálavamos bastante) mas como sempre, tinha um babaca em volta dele. Deixei pra lá. O Gualberto Costa  e o Sidney Gusman cumprimentavam muitas pessoas. Papeei um pouco com o simpático Gilberto Maringoni e teria sido apenas isto. O fato é que nesta ocasião tive o prazer de conhecer o Wellington Srbek. Ele estava lá para receber um prêmio pelo livro que comento hoje se não me falha a memória. Não lembro mais se alguém nos apresentou, mas tive a impressão que ele estava tão deslocado quanto eu. Mas deve ter sido imaginação minha. Muito atencioso e culto, ele demonstrou estar, assim como eu, desgostoso com o mercado editorial de HQs nacionais no Brasil (se é que isto existiu alguma vez). Foi uma conversa rápida e agradável. Depois nos falamos por telefone algumas vezes. Trocamos gibis de nossa autoria pelo correio. Eu, constrangido por enviar um álbum amador do Zé Gatão (o tipo de quadrinho que sempre me pareceu não ser do gosto dele) e ele me remetendo deliciosas narrativas com artes de talentos do naipe de Shimamoto, Colin, Klévisson Viana e tantos outros, confirmando o que eu já sabia desde Estórias Gerais, que Srbek é um dos melhores escritores de quadrinhos que este país já produziu mesmo com toda a correnteza contrária. Inclusive desmentindo uma teoria de que o Brasil possuía ótimos desenhistas, mas roteiristas fracos.
Wellington mantém um blog que recomendo com veemência chamado MAIS QUADRINHOS. Lá vocês encontrarão matérias, HQs e entrevistas que ele fez com feras do porte de Brian Bolland, David Lloyd e muitos outros.

FLAVIO COLIN - Penso que Colin está para nós brasileiros como Eisner para os americanos. Acho que no tocante ao estilo de desenho Colin ainda é superior, afinal o estilo do criador do Spirit faz parte de uma escola onde no período afloraram mestres como Jack Davis, Mike Ploog e outros. Já o traço de Colin é único e inimitável. Eu amei aqueles desenhos desde a primeira vez que os vi. Será que o OTA não pretende relançar num álbum todas aquelas divertidas histórias do "Hotel do Terror"?
Tive o prazer de falar com o Flávio pelo telefone. Foi o mestre Shimamoto quem nos aproximou. Ele me ligou certa vez para agradecer por ter lhe enviado meu álbum.
Sempre muito simpático e paternal com sua voz grave.
Tive a pachorra de pedir que ele desenhase um pin-up de Zé Gatão para um projeto que tinha em mente e ele gentilmente recusou dizendo: "O personagem é seu, desenhe-o você mesmo." Confesso que fiquei sem graça, mas hoje eu compreendo. Encontro as vezes jovens admiradores do meu trabalho que  me pedem para desenhar suas criações, e não sei como responder. No meu caso, é pura falta de tempo. Não encontro hoje ocasião para tocar nem meus próprios projetos.
Mestre Colin partiu sem colher os frutos de seu talento inigualável e sem que eu pudesse conhece-lo pessoalmente.

ESTÓRIAS GERAIS - Nunca li Grande Sertâo: Veredas. Numa época em que via pouca TV, ainda pude conhecer um pouco da saga do Riobaldo e Diadorim pela mini-série da Globo (aliás, nunca vão reprisar isto?) mas perdi os primeiros capítulos e não vi os finais. Não li Sagarana, mas tive o prazer de desfrutar de "Hora e Vez de Agusto Matraga". Cito Guimarães Rosa por não poder evitar um paralelo entre o que ele escrevia e a saga desenvolvida por Wellington Srbek e Flávio Colin. Jagunços, homens ferozes, belas (e traiçoeiras) donzelas, justiceiros e injustiçados, beatos, pactos demoníacos, tá tudo lá, numa trama enriquecida por subtramas habilmente amarradas numa história impossível de ler aos pedaços. O texto repleto de coloquialismos de Srbek fez uma simbióse perfeita com os traços econômicos e peculiares de Colin.
Há muito o que falar, mas se vocês ainda não leram, não percam tempo e procurem pela edição caprichada da Conrad. A edição que possuo ainda é aquela primeira (de um inacreditável preço módico de capa) e que segundo soube, está esgotada.
Estórias Gerais é quadrinho que rivaliza com as melhores obras literárias consagradas. Ítem obrigatório na estante de qualquer quadrinhófilo que se preze.


6 comentários:

  1. Porra, EXCELENTE obra, Eduardo!
    Lembro que, quando jovem, eu sabia quem era o Flávio Colin, mas nunca tinha prestado muita atenção no seu trabalho (moleque é uma merda mesmo...rs).

    Mas minha percepção da obra dele mudou COMPLETAMENTE por causa de "Estórias Gerais" que, de fato, não deve em nada aos grandes trabalhos gringos de HQ.

    E passei a ter toda uma nova apreciação pela arte de Colin, que é impecável em sua simplicidade, muito elegante em sua economia de traços e abundante de expressividade.

    Grande abraço,
    J.

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  2. Nem há o que acrescentar James, você disse tudo.
    Um abraço.

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  3. É. O James disse mesmo tudo. Ainda não li Estórias Gerais, mas até hoje dou uma folheada nas Calafrios que tenho aqui com historias dele. Logo que ele morreu, houve uma Fest Comics, ainda no prédio da Gazeta e vi por lá originais do Colin que estavam à venda. Se pudesse, teria adquirido um pra colocar na minha parede.
    Abração,

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  4. Salve Gilberto.
    É, a perda do mestre Colin é algo que não consigo aceitar, melhor dizendo, não consigo aceitar o fato dele nunca ter tido o devido reconhecimento pelo seu talento. E nem hoje eu penso que foi feito justiça a este grande artista. Nas poucas vezes que nos falamos, ele reclamou muito de dificuldades financeiras e não conseguir emplacar muitos de seus projetos pessoais. O Srbek foi um dos que não mediram esforços para dar ao mestre trabalhos que estivessem à sua altura.
    Abraços.



    Abração.

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  5. Meu velho,
    O Colin foi um dos maiores do mundo. Não entendia isso quando era um moleque, embora sempre lia suas histórias nas extintas Spektro e Calafrio. Hoje entendo que ele foi um gênio e sua capacidade narrativa é algo que merece ser cuidadosamente estudada. Colin merece ter sua obra republicada. E Estórias Gerais é uma obra prima. Aliás, a parceria com o Srbek é algo como Pelé e Garrincha. Wellington é um dos melhores do país sem dúvida alguma. E o mais importante, nunca deixou de reconhecer aqueles que foram fundamentais na arte dos quadrinhos nacionais. Srbek não só ofereceu trabalhos de qualidade ao mestre como segue à risca algo que Colin pregou por toda uma vida: a brasilidade de nossos quadrinhos.
    Obrigado por compartilhar suas impressões conosco em tão boa - e emocionante - postagem.
    Um abraço!

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  6. Caro Lillo, suas palavras, assim como a do James, nem precisam de adendo. Sublinho embaixo de cada letra, e com risco de parecer piegas, eu diria que Colin sempre estará vivo para nós que reconhecemos sua genialidade e ainda nos deleitamos com sua arte que é atemporal. Quanto ao Srbek, bem, claro que ele ainda tem muito chão pra queimar.
    Obrigado por sua visita e palavras.
    Forte abraço.

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