Total de visualizações de página

terça-feira, 12 de abril de 2011

VELHA COMPANHEIRA.

Hoje pela manhã notei algumas formiguinhas caminhando pela minha prancheta. Na verdade ela anda precisando de uma faxina. Pedi a Verônica que deixasse a limpeza do estúdio por minha conta (afinal só eu entendo minha bagunça), e tenho negligenciado.
Ela é uma prancheta pequenininha, uma fiel ajudante de muitos anos, presente do meu amigo Ricardo Bermudez, e ela serviu a ele por muito tempo também. É gozado como nos apegamos a estas coisas mesmo elas sendo inanimadas. A primeira mesa que tive, eu comprei lá pelos idos de 80. Não fiquei muito tempo com ela. Eu era mais volúvel na juventude, assim que peguei uma grana com meus desenhos, eu comprei uma prancheta enorme com pernas de metal e mobilidade hidráulica. Eu era assim, tinha grana? Então era pra adquirir o que fosse de melhor. Lembro que foi nesta época que comprei alguns materiais que tenho até hoje, como um estojo de lápis de cor aquarelado CaranD´ache (acho que escrevi errado mas dane-se) de 36 cores. Tenho ele até hoje, a cor preta é só um toquinho. Os estojos de aquarela algumas cores ainda sobrevivem.
Minha grande prancheta era como essas mulheres opulentas, fiéis, guerreiras, testemunhou um sem número de artes, estava sempre atulhada de pincéis, tintas, lápis, papel de todo tipo, canetas, livros e gibis.
Ela só tinha um problema, eu machucava meu joelho no suporte de sustentação quase todas as vezes que ia sair dela, geralmente pela direita. Estou quase convencido de que ela gostava da minha companhia e aquela pancada era uma forma de demonstrar seu descontentamento com minha ausência.
quando nos mudamos pra São Paulo, claro que ela foi comigo. Nela, fiz quase tudo sobre Zé Gatão. Ela só não acompanhou o último álbum.
Enfim chegou o dia de retornar a Brasíla. Como iríamos morar numa quitinete, não haveria espaço para a minha amiga. Realmente, não havia necessidade de algo tão grande. Não queria vende-la, queria que fosse para as mãos de outro artista, então ofereci ao Lourenço Mutarelli, ele disse que não podia ficar com ela.
No final das contas, como ela ainda estava firme e forte, troquei-a por materiais de desenho numa casa especializada na Rua Rêgo Freitas, os donos do local já morreram, inclusuive.
Em Brasília, numa pensão na W-3 Sul, trabalhei numa mesinha, tipo essas de escritório, até que o Sr. Bermudez, me presenteou com sua pequena escudeira, que me acompanha até hoje.
Me sinto um pouco nostálgico com este texto (acredito que ele prescinda de imagem, por isto hoje não há desenho), creio que aqueles que vivem do mesmo ofício que eu, sentados todos os dias, com suas artes apoiadas na mesma e velha prancheta por anos, entenderão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário