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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ZÉ GATÃO ( CRÔNICA DO TEMPO DO PERDIDO ) Parte 1


Na segunda metade dos anos 90 eu estava com todo gás, mal acabava uma hq eu já dava inicio a outra numa fome insaciável. Nem tinha me recuperado da agitação da concluir "A Cidade do Medo" e dei vida a uma série de histórias curtas que de inicio batizei de "Crônicas". Eram idéias que me pegavam de sopetão, geralmente na hora de dormir ou quando "viajava" nas filas de um banco qualquer. Normalmente baseada em alguma experiência pessoal.
Quando pude, publiquei meu primeiro álbum, trabalho totalmente amador fortemente influenciado pelo underground italiano.
Com alguma experiência adquirida naquelas páginas fui dando corpo a estas idéias. Iam sendo fechadas em envelopes pardos a medida que ficavam prontas. Quem sabe um dia eu publique, pensava.
São Paulo, a mulher de tetas grandes e caídas convertia-se agora num vampiro que drenava minhas energias e precisei partir antes de enlouquecer de vez. Voltei para Brasília com 40 reais na carteira decidido a arrumar um emprego e me tornar um cidadão decente. Mas antes de deixar de ser um vagabundo desenhador de comics pornoviolentos, eu queimei meu filme morando de favor na casa de uns conhecidos. Um mês na casa de um, outra semana na casa de outro. Passei por momentos horríveis. Tanto constrangimento tiravam todo o brilho que uma cidade como a Capital Federal tinha para oferecer.
Tentei emprego até de cartazista no Carrefour. NADA. Todo este tempo fui mantido por meu irmão que nesta época não ganhava lá muito bem e sofria os horrores de um péssimo casamento. Tentei a todo custo evitar morar com ele e assim piorar um matrimônio já no ocaso. Não foi possível. Ou ia para debaixo do seu teto agravar a ferida,  testemunhar suas agruras ou dormia na rua. Foi ali que fiz a curta PALAVRAS VENENOSAS, com uma prancheta de mão, sulfite, esferográfica preta e caneta de retroprojetor.
Arrumei finalmente um emprego numa empresa de comunicação que prestava serviços para diversos orgãos públicos de Brasília, em especial o Ministério da Saúde. Minha função lá era criar histórias em quadrinhos educacionais. Trabalhavam na mesma empresa os artistas Nestablo Ramos e James Figueiredo. Eu e um ótimo escritor chamado J.G. Pinheiro (que ali tinha a função de roteirista) criamos a série "Garoteens". Modéstia a parte um excelente trabalho, mas como vocês devem saber, os chefes destes lugares não sabem a diferença entre uma jóia e um pedaço de cagalhão seco, rejeitaram nossa idéia preferindo uma porcaria criada por outro desenhista de lá. Tivemos que trabalhar utilizando aqueles personagens insossos... mas estou me afastando do assunto.
Era o ano de 1998. O Brasil, ganhava um jogo dramático contra a Holanda na copa. Nesta noite em Sampa, meu pai sofreu um AVC que mudaria radicalmente os rumos da familia. Eu e meu irmão fomos visita-lo. O Brasil perdeu a copa para a França.
De volta ao DF, a famosa Fábrica de Quadrinhos, que nesta época era capitaneada pelo Jotapê Martins, veio para um evento de quadrinhos que foi sediado no Park Shopping, fui lá dar uma prestigiada.
Eu e o Jota conversamos um pouco. Elogiou meu primeiro álbum, só disse que eu excedia no texto, fosse ele o editor, ele cortaria metade das minhas palavras. Tem coisa nova? Tenho umas curtas esperando você, falei.
Me manda. Ok, eu disse.
Começava assim o processo de publicação do chamado álbum preto. Um tempo que duraria longos seis anos.

6 comentários:

  1. Aí, boa idéia falar dos álbuns aqui. Depois de "Crônicas" vc poderia falar (e mostrar algumas páginas) de Memento Mori. Contar a história dele aqui talvez te abra a porta a tanto tempo esperada.

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  2. Sim, está nos meus planos falar sobre Zé Gatão-Memento Mori muito em breve. Aguarde.
    Valeu, amigão.

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  3. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK... Cagalhão seco?! caramba, eu não teria feito uma comparação melhor, Dudu! eram uns idiotas mesmo!

    abração!!!

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  4. Eu me pergunto amigo,como pudemos trabalhar tanto tempo pra uns caras tão canalhas?
    Lembra daquele bigodudo que você criou para fazer figuração em pelo menos um quadro nas hqs que você criava? Pois é, quando o palhação do chefe vetou o personagem, eu me dei conta de que aquele cara não sabia trabalhar com este tipo de coisa. Azar o dele. Faliu. O problema é que nós afundamos juntos no barco dele.
    Abraços.

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  5. Os caminhos que a Arte dá para sobreviver ao dia a dia. Muito bom conhecer um pouco da sua caminhada!Siga sempre apesar das dificuldades!Talee

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    1. Legal que goste do que escrevo, Edilene, obrigado!
      Forte abraço!

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