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domingo, 8 de agosto de 2010

ZÉ GATÃO ( O PRIMEIRO LIVRO )

Tenho refletido muito esses dias sobre Zé Gatão. Se o personagem tem alguma relevância no atual cenário de quadrinhos nacionais e essas coisas. Olhando no horizonte, parece-me que o panorama pra nona arte no Brasil tem melhorado. Não dá pra dizer se o que vejo é apenas uma miragem. Temos visto uma garotada extremamente talentosa publicando - e não só de forma independente - excelentes trabalhos. Entretanto não noto um mercado ganhando corpo. Me desculpem os mais otimistas, mas não dá pra confiar. As hqs hoje (como a muito tempo já vem acontecendo), tem que disputar no braço o espaço a que pensa ter direito com outras mídias mais poderosas. E por incrível que possa parecer, foi a única forma de expressão que evoluiu, tanto que o cinema tem bebido muito da fonte que ela tem jorrado.
Quando idealizei meu personagem, o quadro de então era bem diferente; Marcelo Campos, Octavio Cariello, artistas fenomenais, começavam suas carreiras trabalhando para as editoras americanas, outros como Mutarelli, ganhavam notoriedade por aqui mesmo, mas eu acho que na prática pouca coisa mudou, pois um tempo antes ainda, o Marcatti já ganhava destaque imprimindo e distribuindo ele mesmo suas próprias revistinhas. Hoje, vemos vários quadrinhos legais feitos por uma rapaziada notável, mas elas continuam independentes. Ou seja, publica-se um número limitado de revistas para serem lidos pelos amigos e fãs desta mesma rapaziada ( na maioria dos casos), e a coisa se torna um círculo vicioso apesar da divulgação que a internet possibilita.
O que me traz de volta ao ponto : teria Zé Gatão algo a dizer hoje em dia?
Parece pedante da minha parte fazer esta indagação, uma vez que este gato nunca teve sucesso comercial, né?
Os artistas mais novos já me perguntaram se eu me inspirei em Blacksad, vejam só. Pelo que sei o gato preto dos espanhóis só veio a público em 2000 e o meu em 1997. Isto sem contar que o criei em 1992, o ano em que eu e minha família voltamos pra São Paulo depois de morar quase 20 anos em Brasília. A selva de pedra praticamente nos engoliu. Eu não conhecia ninguém e vinha de um relacionamento conturbado que ao final quebrou minha alma em mil pedaços. É incrível o que uma mulher pode fazer com um cara quando ele é jovem. Todo este cenário culminou com a necessidade de me desabafar através dos quadrinhos, e as hqs do felino tiveram aí a sua gênese. Explico parte deste processo na introdução do álbum.
O que ninguém sabe é que o Marcatti teve algo a ver com isto tudo (nem mesmo ele), e eu nunca pude agradecer. Fui certa vez a uma palestra na gibiteca Henfil e conversei com o Marcatti. O conselho dele foi este: vá fazendo suas histórias sem a preocupação em publicar, quando tiver um número de páginas razoável, reúna em um álbum e publique você mesmo. Pensei um bocado nestas palavras.
Folheei o livro recentemente após muitos anos, e me parece uma boa hq de ação, embora num traço bem amador. Houve uma época em que ficava constrangido com minha inabilidade em narrar certas passagens. Como aquela em que a gatinha Alice esnoba Zé Gatão por exemplo. Já tinha sido vítima de adolecentes que desdenham de você quando na verdade estão afim. Eu não soube transmitir esta idéia e me pareceu algo idiota e desnecessário no contexto. Na verdade eu não tinha um método prático de como criar uma história em quadrinhos. Eu tinha uma idéia e fui desenhando a medida que elas iam fluindo, geralmente no final da noite após chegar do trabalho. O início, meio, e fim já estavam concebidos antes de me lançar na tarefa, mas eu não tinha exatamente um roteiro traçado.
Sabem, não me arrependo de nada, mas confesso que pensei que nós (brasileiros) estivéssemos preparados pras coisas que o álbum mostra de forma explícita, como as consequências de uma guerra (violência exacerbada, estupro e coisas do tipo), cenas de nú frontal masculino, algo comum nos comics do Corben, Liberatore e Magnus, causaram choque em muitas pessoas e o resultado disso é que fui tachado de indecente, abrutalhado  e outros adjetivos pouco simpáticos.
Algo que sempre insisto em afirmar é que toda obra artística reflete o que o artista sente naquele momento em que ela foi realizada, e também ela é o espelho de como este artista vê a sociedade que o circunvizinha.
Daí, vocês que leram o livro, podem imaginar a teia de angústias em que minha mente estava envolvida.
Tendo o trabalho pronto, me dei conta de que não havia onde publica-lo. A ótima revista Animal seria uma excelente casa para Zé Gatão, mas ela já tinha ido pras picas havia tempos, agora não me recordo se tinha alguma editora naquela época que bancasse a empreitada, mas lembrando do conselho do Francisco Marcatti, aguardei até que se apresentasse a oportunidade de edita-la eu mesmo.
A ocasião surgiu em meados de 97. Eu e meu pai pegamos um empréstimo num banco e botamos pra rodar numa gráfica na Santa Cecília. Como eu ia divulgar? Não sabia. Como eu ia distribuir? Tampouco.
Eu ia quase diáriamente à gráfica acompanhar o processo de impressão. Sempre fui arredio e ensimesmado, mas lembro que minha mãe e minha filha diziam que eu estava alegre e eufórico naqueles dias.
Finalmente os 2000 exemplares ficaram prontos e atulharam o quarto onde eu, André, Rodrigo e Samanta, respectivamente meus irmãos e minha filha, dormíamos.
Lembro que durante dois dias eu relutei em levar aos locais de venda. Pensava: quando as pessoas lerem, aí não terá mais volta. Amarão ou odiarão, ou pior, ninguém vai dar a mínima.
O primeiro local que levei foi a Livraria Muito Prazer.  Sempre fui amigo dos donos que me deram a maior força. Depois na Comix, Devir, e outros locais menores. Eu tinha que fazer o trajeto de ônibus ou metrô com aqueles pacotes pesados. Em muitos destes locais, com o meu misantropismo típico, eu me sentia um verdadeiro idiota, tentando explicar o que era o produto.
Dei um jeito de que chegasse às mãos das certas pessoas que pudessem escrever em jornais e revistas (a internet engatinhava naqueles tempos).
Uns amaram, outros odiaram, mas creio que ninguém ficou indiferente.
Muita gente torceu o nariz pelos personagens serem animais antropomorfos. Eu digo: OS ANIMAIS SÃO EXCELENTES ATORES PARA INTERPRETAR OS DRAMAS HUMANOS.
Muitos criticaram o formato álbum. Eu era um artísta da fome, desconhecido, era muita pretenção minha, tinha que ser uma revista de banca pra estar mais acessível, etc.
Outros quiseram saber se me inspirei em "Maus", do Art Spiegelman. Nada disso, queria algo entre "Animal Farm", do Orwell e "Edmundo o porco", do Rochette e Veiron que era publicado na Animal. 
Levei muito calote. Muitas comic shops, como a Merlin, fecharam e não recebi, Os Invasores (acho que o nome era esse) de Santos também fechou e não pude ir lá receber. Em alguns lugares onde fui cobrar pelas vendas, que foram boas, eu era tratado como se estivesse pedindo dinheiro emprestado. Mas tudo bem, faz parte do processo.
Não foi bem divulgado, apesar de algumas ótimas resenhas ( se der, postarei algumas aqui ). Ainda tenho exemplares deste livro. Não tenho intenção de republica-lo um dia. Fez parte da minha história por isto deixo mais este registro aqui.
Tenho orgulho do livro branco. Como não ter? Através dele conheci muita gente legal e meio que ingressei no "metier"de quadrinhos brasileiros. Um exemplar acabou chegando às mãos do lendário Jotapê Martins, mas esta já é uma outra história. 





8 comentários:

  1. Na raça! Bem por aí... Quando muitos (que nem eu) resolvem publicar hqs próprias em fanzines, outros juntam uma verba pra revistas e montá-las de forma independente, a exemplo dos meus amigos do DIGGITE STUDIO e da equipe QUADRANTE SUL.

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  2. Sim, é uma guerra que pretendo trava-la novamente.
    Desisti de oferecer o novo álbum para as editoras, quero publica-lo eu mesmo, até pra ter controle total sobre a obra.
    Fiquei sesibilizado com a postagem no seu blog, homenageando seu pai e seu avô. Parabéns.
    Diggite Studio e Quadrante Sul, depois me dê mais informações pra eu conhecer.
    Obrigado pela presença.

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  3. Du, adorei a postagem! Muito legal, mesmo! Aliás, vou reler meu Zé Gatão, que faz tempo que eu não leio. Nóis se fala por Gugol tolqui (risos) ou eme-esse-ene!

    Abraço!

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  4. Se o Todo Poderoso me permitir, pretendo ainda continuar este tema. Tenho as matérias de jornais e revistas sobre o álbum, além é claro, o livro preto que também tem uma história por trás.
    A gente vai se falando.
    Brigadão, abraços.

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  5. Certo... Atendendo teu pedido: visite os blogs quadrantesul.blogspot.com e diggitistudio.blogspot.com pra conferir. Sinta-se a vontade pra comentar nos blogs deles e no meu, que agradeceremos.
    Até...

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  6. Legal foi ver que sua família sabia da qualidade do trabalho e te apoiou, Schloesser. É mesmo um álbum pra se orgulhar. Parabéns!

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    1. Obrigado, Carla. De fato, sem o apoio da família minha vida nas artes não seria possível.
      Um abração.

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